Ibrahim Mahama transforma a arte em memória, escola e instituição — e leva para Paris uma ideia de futuro que começou em Tamale.
Há artistas que produzem obras. Outros acabam por construir também as condições para que novas obras, novos artistas e novos públicos possam existir.
Ibrahim Mahama pertence cada vez mais à segunda categoria.
Nascido em Tamale, no Ghana, em 1987, o artista tornou-se internacionalmente conhecido pelas suas instalações monumentais realizadas a partir de materiais usados: sacos de juta, fragmentos industriais, documentos, tecidos, madeira, objetos encontrados e vestígios de infraestruturas abandonadas.
Nas suas mãos, aquilo que poderia parecer desperdício deixa de ser matéria silenciosa. Os objetos começam a contar histórias: de trabalho, circulação de mercadorias, colonialismo, industrialização, independência e promessas de desenvolvimento que ficaram por cumprir.
Mas talvez a dimensão mais interessante do trabalho de Mahama já não esteja apenas nas obras que assina. Está naquilo que decidiu construir à sua volta.
De Tamale para Paris
A exposição The Harvest Season, inaugurada a 22 de outubro de 2026 e patente até 28 de fevereiro de 2027 na Fondation Cartier pour l’art contemporain, representa a primeira grande apresentação de Ibrahim Mahama em Paris.
Não é uma retrospectiva convencional. Mahama ocupa os espaços da Fondation Cartier com instalações concebidas especificamente para o edifício, novas versões de obras anteriores, arquivos e objetos, mas recusou transformar a exposição numa celebração exclusivamente individual. Convidou artistas e coletivos com quem mantém relações de colaboração, investigação e intercâmbio.
Entre eles encontram-se James Barnor, Dorothy Akpene Amenuke, Gideon Appah, Zohra Opoku, Courage Dzidula Kpodo & Postbox Ghana, Tjaša Rener, Feda Wardak e o Cercle d’Art des Travailleurs de Plantation Congolaise.
É uma escolha significativa. Num sistema artístico internacional frequentemente estruturado em torno da figura individual do artista consagrado, Mahama transforma uma exposição pessoal numa plataforma coletiva.
Paris recebe Ibrahim Mahama. Mas Ibrahim Mahama leva consigo uma comunidade.
Os objetos também têm memória
Uma das ideias centrais da sua obra é aparentemente simples: os materiais transportam histórias.
Um saco de juta não é apenas tecido. Pode ter transportado cacau ou outras mercadorias. Passou por mãos, armazéns, portos e mercados. Participou numa cadeia económica. Acumulou marcas físicas do trabalho humano e da circulação global.
Uma estrutura industrial abandonada também não representa apenas ruína. Pode ser testemunho de um projeto económico interrompido.
É por isso que Mahama regressa frequentemente à história do Ghana após a independência e às ambições modernizadoras associadas ao período de Kwame Nkrumah. O passado não aparece, porém, como nostalgia. Serve para perguntar o que poderia ter acontecido — e aquilo que ainda pode acontecer.
Uma fábrica abandonada pode tornar-se uma escola
É aqui que a trajetória de Mahama se torna particularmente relevante para pensar a cultura africana contemporânea.
A partir de 2019, o artista começou a desenvolver em Tamale um conjunto de centros culturais independentes dedicados à arte, investigação, educação e preservação de património.
Mahama poderia ter concentrado os recursos provenientes da sua carreira internacional exclusivamente na expansão da própria produção artística. Escolheu outra direção. Investiu em infraestrutura cultural.
Essa decisão altera profundamente a pergunta sobre o papel de um artista. Em vez de perguntar apenas “o que pode criar um artista?”, passamos a perguntar: “o que pode tornar possível um artista?”
Uma exposição? Uma escola? Um arquivo? Um espaço de encontro? Uma nova geração de criadores? Talvez tudo isso simultaneamente.
O centro também pode estar em África
Durante décadas, uma parte importante da legitimação internacional dos artistas africanos passou por geografias muito específicas: Paris, Londres, Nova Iorque, Berlim, Veneza.
Entrar nesses circuitos continua a ter enorme importância. Mas há uma transformação mais profunda em curso quando artistas africanos internacionalmente reconhecidos utilizam parte desse capital cultural e económico para construir instituições nos seus próprios territórios.
Tamale deixa então de ser simplesmente o lugar de onde Ibrahim Mahama veio. Passa a ser um lugar para onde outros podem ir. A direção da circulação cultural começa a mudar.
A ambição já não consiste apenas em garantir que artistas africanos sejam apresentados nas grandes instituições internacionais. Consiste também em participar na criação de instituições africanas capazes de produzir conhecimento, formar públicos, preservar arquivos, acolher artistas e estabelecer as suas próprias relações internacionais.
Uma exposição sobre aquilo que ainda não aconteceu
O título The Harvest Season — o tempo da colheita — contém uma metáfora poderosa. Antes de colher é necessário semear. E entre os dois momentos existe trabalho, aprendizagem, transmissão e tempo.
A exposição recupera também as utopias políticas, culturais e sociais que acompanharam as independências africanas das décadas de 1950 e 1960, perguntando o que permanece das possibilidades então imaginadas.
Mahama propõe, assim, uma leitura menos confortável da história. Nem tudo aquilo que foi imaginado chegou a realizar-se. Mas um futuro não concretizado não precisa necessariamente de desaparecer. Pode permanecer dentro dos arquivos, dos edifícios, das fotografias, dos objetos e das memórias. Pode ser recuperado. Transformado. E novamente colocado em circulação.
Arte não é decoração do mundo
Há uma tendência para medir o sucesso da arte contemporânea através dos seus resultados mais visíveis: exposições internacionais, presença em bienais, museus, coleções e mercado.
Tudo isso importa. Mas a experiência de Ibrahim Mahama sugere outro indicador possível.
Que instituições ficam depois do artista? Que conhecimento foi transmitido? Que património foi preservado? Quantas pessoas tiveram acesso a espaços de criação que anteriormente não existiam? Quantos artistas puderam trabalhar porque alguém construiu as condições para isso?
Nesse sentido, The Harvest Season pode ser vista como mais do que uma grande exposição africana em Paris. É também a apresentação de um modelo no qual a circulação internacional não significa abandonar o território de origem, mas regressar a ele com novos meios para construir.
Construir o lugar de onde se fala
Durante demasiado tempo, o debate cultural africano foi dominado pela pergunta sobre como conseguir espaço nas instituições dos outros.
Essa pergunta continua válida. Mas talvez esteja a nascer outra: que instituições queremos construir nós próprios?
A obra de Ibrahim Mahama não oferece uma resposta universal. Nem deveria. Oferece algo mais interessante: uma experiência concreta.
Um artista nascido em Tamale alcança algumas das mais importantes plataformas internacionais da arte contemporânea e utiliza essa projeção não apenas para ampliar a sua obra, mas para criar lugares onde outras pessoas possam aprender, investigar, produzir e imaginar.
Agora, uma parte desse universo chega a Paris. Mas o centro da história talvez continue noutro lugar. Em Tamale.
Porque a verdadeira transformação começa quando África deixa de ser apenas o lugar sobre o qual se fazem exposições e passa, cada vez mais, a construir os lugares a partir dos quais o mundo também pode ser pensado.
— Nimba Journal
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Fonte principal: Fondation Cartier pour l’art contemporain, Ibrahim Mahama — The Harvest Season, exposição de 22 de outubro de 2026 a 28 de fevereiro de 2027.





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