
(…) Qualquer que seja a leitura que se fizesse do Kumus, chegar-se-á à conclusão que a obra se encontra dividida em quatro partes, organizadas numa sequência lógica e cronológica, separadas por espaços geográficos e tempos históricos diferentes, onde os dois personagens, Kambanó e Homi, vão sendo submetidos a progressivos desafios de crescimento, formação e adaptação. A primeira parte começa em Sintcham Sane de Birbam e em Farandinto e estende-se de Kumus até Cachéu. Trata-se de uma fase da narrativa a que se pode alegoricamente chamar de “Baraka de Fanadu”, conquanto sabemos que é nestes espaços de preparação para a integração social que se pretende tradicionalmente que os jovens aprendam tudo sobre a vida, as tradições e crenças locais, construindo a partir daí uma identidade própria. O autor Domingos Simões Pereira (DSP) ensina-nos, nesta primeira parte do livro, algo sobre a história da Guiné-Bissau, sobre as relações sociais existentes desde a época pré-colonial, durante a colonização e até ao período da guerra da libertação nacional, permitindo aos personagens aprender, de mais a mais, também sobre as configurações sociais, culturais e religiosas, adaptando-se aos tempos em que, do futuro, já se captavam as fragrâncias da independência. DSP guia-nos através dos personagens como o velho Kitirna, a Tia Mia, o Professor Domingos Mendonça, conduzindo-nos pelas suas charruas, pelas imagens e emoções que os textos criam em nós, tal como a “Baraka de Fanadu” que representa uma parte fundamental da nossa própria existência, que nos ensina a ser mais conscientes da nossa história e da nossa própria identidade. Kumus é, neste aspeto, mais do que um romance de aventura.

E porque a aventura é também algo bastante caraterístico desta obra, os protagonistas, que não passam de duas partes de uma mesma laranja, partem para Bissau, na parte da narrativa a que se propõe chamar de Bissau Nando – Tera di kunsi udju, roubando a frase ao Tino Trimó e continuando ainda no mesmo segmento alegórico do fanadu. O que torna esta parte do livro especial não são só os vários momentos tragicómicos que nela se encontram, como o cenário do dia 1 de abril, em que Kambanó julgava que o jogo Sporting-Benfica, em que o Sporting tinha sido derrotado, se iria repetir, porque assim tinha ouvido falar na rádio, ou o cenário do jogo de cartas em que a dupla Nando & João conseguiu ludibriar e vencer à dupla Tia & Tio Joaquim, ou ainda o cenário em que um lutador do Lino Correia catou o Senhor Djossé, erguendo-o para lá dos ombros e atirando-o ao chão. O que torna esta parte do livro interessante, de facto, é também a mestria com que DSP traçou o perfil dos dois rapazes, Kambanó e Homi, dotando-os de uma singular humildade e particular abertura para reaprender tudo de novo e desconstruir os preconceitos, os medos e as barreiras culturais. Veja-se que“Kambanó estava disposto a aguardar com paciência e pelo tempo que fosse necessário para aprender tudo o que tinha a aprender, mas, em relação ao futebol e tal como se diz por aí que quem se não sente de agravos, não é honrado, a sua decisão estava mais do que tomada. A partir desse dia, passou a ser do Sporting, seja lá o que isso pudesse significar e independentemente das implicações que daí viessem”.

Importa destacar que a narrativa nos desafia, nesta fase do livro, a refletir sobre a importância do conhecimento, do crescimento, da diversificação cultural e da necessidade da formação de uma identidade coletiva sólida. Não podemos, contudo, encarar o êxodo dos dois rapazes para a capital como uma sequência lógica e inevitável da história, apenas porque se trata de uma narrativa quase autobiográfica, usando aqui o silogismo de que se assim tinha sucedido na vida real do autor, então assim teria de suceder com os personagens; esta seria uma leitura bastante estética, nada heurística, que não implicaria nenhum esforço exegético no sentido de tentar compreender e captar os vários sentidos possíveis das mensagens que a obra encerra. Por isso, e porque a missão do leitor aqui é entender Kumus e aprender com o DSP, tendo em crer que a ida dos rapazes para Bissau, mais do que factual e histórica, é uma lição: a lição de que devemos aprender a conviver com a nossa diversidade. E eis o que fizeram Kambanó e Homi, personagens revestidas de um perfil humilde, reflexos do próprio autor, com o que puderam perceber que as crenças e os valores que traziam de Kumus não os isentava da necessidade de adaptar, integrar e aprender tudo de novo. Fizeram-no com sofística, submetendo-se com interesse à realidade sociocultural de Bissau, procurando o conhecimento e a integração com toda a sua alma. Sem achar que nada sabiam, aceitaram que o que traziam podia não ser uma verdade absoluta e que a verdade absoluta, a existir, estaria no todo, na coletividade. Bissau funcionou como uma seleção cultural, no sentido em que Darwin falava de uma seleção natural das espécies, graças à qual os dois rapazes progrediram, não de sucesso em sucesso, mas por tentativas e eliminação de erros. São os tais progressos somados em Bissau que sustentam a terceira parte do livro, a que vamos chamar de as fábricas de engenheiros, em que os protagonistas emigram, respetivamente, para a antiga URSS e para os EUA, em busca de sabedoria. Nesta parte, o autor aborda a ideia da sabedoria numa dimensão e com tal subtileza que nenhum diploma universitário seria capaz de sancionar. Realça, sim, a sua componente teórica, mas com a tónica na dimensão prática, mostrando-nos que a sabedoria não se trata só de ciência, mas de vida. Este aspeto é sobretudo patente quer nas duas participações de Kambanó naquilo a que os soviéticos chamavam de brigadas de trabalho juvenil ou simplesmente “Otríades”, como nas duas digressões de Homi para participar num torneio de futebol que se realizava em Las Vegas e para participar numa exposição do mundo da construção em Nova Orleãs.

Mais uma vez, uma leitura estética dir-nos-ia que a obra é quase autobiográfica e que, portanto, o retrato da vida de Kambanó, na Ucrânia, e de Homi, na Califórnia, não passa de memórias e recordações do próprio autor. Engane-se, diria, quem se limitasse a essa perspetiva. Temos diante de nós um livro escrito com sabedoria, que nos permite afirmar que as partes dessas tais memórias foram sabiamente selecionadas para integrar esta narrativa lógica e ideológica que o próprio autor carateriza como um “romance de aventura”. Aprendemos em cada uma dessas memórias selecionadas que os livros, o conhecimento, o diploma, não bastam, mas são ferramentas imprescindíveis para se ser sábio. Ninguém pode transformar uma realidade sem a condição prévia de a apreender, de a compreender, de a conhecer. Não se trata de inventar sistemas, não se trata de manejar conceitos, a finalidade única é viver um pouco melhor, ou um pouco menos mal. E isso não é nenhuma utopia; a sabedoria não é uma utopia, porque nenhuma utopia é sábia, pois o mundo não é para ser sonhado, mas, sim, para ser transformado. A sabedoria é, antes de mais, uma certa relação com a verdade e com a ação. O autor DSP transformou Kambanó e Homi em sábios, homens de ação, que fazem acontecer, engenheiros de ideias e materializações, que tudo fazem, mesmo perante os outros, como nós, que só sabem esperar e lamentar. Transformar a realidade pressupõe, antes de mais, a sua valorização. É isso o que os engenheiros da vida real fazem e foi isso o que DSP pós aos seus personagens literários a fazer na parte final do livro, que culmina com vários discursos, num Congresso internacional sobre as lições de Kumus – o presente e o futuro. Cada um desses discursos são capazes de nos fazer desvair em lágrimas, porque tornam tão possível e tão fácil a ideia de construção da nossa identidade e do nosso país.




Kumus também se transforma numa terra sagrada, lembrando o conceito de sagrado que é instituído por Mircea Eliade, que nos diz que o sagrado é um modo de apreensão da realidade. Nós sacralizamos coisas no real, carregando-as de valor. DSP fez de Kumus uma terra sagrada. Veja-se que, na receção do Governador Kambanó ao Engenheiro Homi, foi pedido “ao Régulo para abençoar o início da visita e permitir que o hóspede pudesse ir descansar para a residência que lhe estava preparada, o que foi prontamente atendido, apesar de o Régulo ter optado por passar a missão ao Imame que o acompanhava, pedindo-lhe que orientasse dois Al-fátihas”.

Depois desta leitura heurística que, de alguma forma, é também suficiente para compreendermos as mensagens centrais do livro, julgo que fazendo agora uma leitura exegética e política, não porque o autor é líder de um partido político, mas porque Kumus é também um instrumento político e didático para a Guiné-Bissau, estaremos em condições de resumir, de forma eficiente, destacando os pontos que na minha opinião são nevrálgicos. Repare-se que o livro nos remete para a nossa diversidade etnográfica que resulta de uma longa história de migrações, comércio e interações entre diferentes povos, cada um com as suas próprias tradições, línguas e culturas, mas que, como qualquer outro povo, também os guineenses tiveram o seu período pré-exilico, em referência ao período mais embrionário da construção da nação. É importante referir que pouco ou nada se sabe do período prévio à chegada dos árabes à nossa sub-região, ficando tudo o que terá acontecido nesse período, as crenças, as tradições, as alianças geopolíticas e estratégicas, perdidas para sempre nas trevas. E não é despiciendo referir que a chegada dos árabes não deverá ter sido a mais pacífica do mundo; terá havido seguramente resistências e muitas matanças de parte a parte, guerras que terão modificado de forma profunda todo o mosaico etnográfico da nossa sub-região. Também houve resistências em relação aos europeus; as “campanhas de pacificação” do Teixeira Pinto são um bom exemplo em como o povo da Guiné nunca se deixou dominar. Mas tudo tem um preço e, às tantas, as guerras entre as tribos, as resistências contra os invasores árabes e europeus tornaram-se cansativas. Os povos cansaram-se das várias mudanças de sítios, de culturas, de tradições, de crenças religiosas e entregaram-se a uma paz envenenada, vendo alienada a sua liberdade. Tiveram de baixar a guarda e deixar-se dominar pelos europeus a troco de uma paz tangencial, porém, duradoura, passando a viver o dilema existencial que implicava uma escolha difícil entre manter intacta essa paz tangencial, mas subserviente em relação ao branco, ou lutar pela liberdade, ainda que isso pudesse implicar manter-se em permanente guerra. É isso o que as famílias Sane e Resende de Oliveira representam neste livro.



A questão que então fica é a de saber se seria exigível à família Sane de Bribam aliar-se ao PAIGC e lutar contra a colonização? Ou se seria exigível à família Resende de Oliveira posicionar-se contra a dominação colonial e pôr em causa o sucesso da sua produção agrícola? Trata-se de um dilema ético, e não moral, lembrando que a ética se centra numa lógica de intersubjetividade que se constitui, ao mesmo tempo, por um princípio de exclusão e de inclusão, em que o outro se torna, dentro da esfera coletiva, uma necessidade vital interna, biológica e sociologicamente. Em termos éticos, um comportamento benéfico para o individuo pode tornar-se reprovável se for desvantajoso para o outro ou para a sociedade. Portanto, levantar-se contra a dominação dos brancos ou colocar-se ao lado dos homens do PAGC, representava um dilema de difícil superação para as duas famílias, porquanto implicava, eticamente, ou a perda da paz coletiva ou viver em permanente dominação do branco. A esse dilema acresce o potencial problema que a multiplicidade de crenças, religiões, tradições, culturas, regras e formas de organização política e social pode gerar numa sociedade como a da Guiné-Bissau.



Neste sentido, não me parece sensato encarar como um dado adquirido que o nosso mosaico cultural é, per si, uma vantagem, uma expressão de maior riqueza. Tendo em crer que a nossa diversidade, só por si, não pode ser considerada nem vantajosa nem perniciosa no que concerne à construção da nossa identidade e ao progresso do país. Para mim, a nossa diversidade etnográfica é como a realidade dos kakres na kabás: djunda-djunda, que em nenhuma medida pode ser benéfica para grupo, com cada um a tentar subir, ainda que tenha de passar por cima do outro. Mas Kumus, contrariando-me, suponho, mostra-nos uma perspetiva diferente, fornecendo uma luz ao fundo do túnel onde as identidades aparentemente controversas se encontram envolvidas num arco de esperanças, onde se misturam a pluralidade etnográfica com as crenças religiosas e ideológicas. Diz-nos que, pela primeira vez, os personagens tiveram de responder para si e para todos à questão da pertença étnica, quando perguntados sobre a etnia a que pertenciam. Homi era filho de banhun, balanta e manjaco, mas sentia-se mandinga, porque foi entre esses que nascera e crescera. DSP tem, deveras, consciência do risco em que consiste qualquer posicionamento inusitado em relação à nossa diversidade e, nesse aspeto, não consigo deixar de o comparar ao saudoso Amílcar Cabral, porquanto há, efetivamente, nesta obra, um projeto, em tese, de construção e consolidação da identidade guineense e do desenvolvimento da Guiné-Bissau.
Esta recensão foi feita pelo escritor guineense Amadu Dafé.

Domingos Simões Pereira, é filho de António Simões Pereira e Victoriana Monteiro. Nasceu em Farim, Kumus-Dindim-Banko, é o último dos cinco irmãos, nomeadamente, Bartolomeu, Tiago, Camilo e Dionísio.
Licenciou-se em Engenharia Civil e Industrial em Odessa, Mestre na mesma ciência técnica em Fresno, nos EUA. É doutorado em Ciência Política pela Universidade Católica Portuguesa. Desempenhou várias funções governativas incluindo a de Primeiro-Ministro; trabalhou para projetos financiados pelo Banco Mundial e a União Europeia; foi Secretário Executivo da CPLP durante dois mandatos.
KUMUS – A PONTE ATÉ NÓS MESMOS, é a sua primeira obra literária.
Domingos Simões Pereira apresenta-se com orgulho pela extensa lista de amigos de verdade, conterrâneos e colegas de muitas jornadas a quem dedica o essencial da atenção e dos seus cuidados.
Esta obra teve a Coordenação Eitorial de Luís Vicente; Prefácio de Mário Máximo; Recensão de Amadu Dafé; Imagem de capa de Ricci Shryock; Capa de Edson Pereira.
A partir do dia 20 de junho estará disponível a 2ª Edição – TOP DE VENDAS – KUMUS.

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